Edição: 11380 Data: 01/11/2014

Notícias - Garça

AUDIÊNCIA PÚBLICA - Discussão sobre animais continua dividindo opiniões

01/11/2014 -


Marisa Araújo, da S.O.S Totó: entidade atravessa uma situação insustentável e ainda há pessoas que põem em xeque a credibilidade da Ong

Embora muitos participantes tenham concordado em alguns pontos sobre os maus tratos aos animais, houve bastante divergência ainda sobre a questão das carroças


Maior participação da sociedade, ajuda do poder público, fiscalização, disque-denúncia e até carrocinha. Esses foram alguns dos vários pontos levantados e discutidos na última quinta-feira (dia 30), durante a audiência pública ocorrida na Câmara Municipal.

Através da Comissão de Sáude, Educação e Assuntos Sociais, a Câmara dos Vereadores abriu a tribuna para que pessoas da sociedade pudessem expor suas reivindicações e sugestões a respeito do problema do crescente abandono de animais pela cidade, além dos maus tratos e abusos. Estiveram presentes também membros das Ongs ligadas ao bem estar dos animais que explicaram a situação calamitosa pela qual vêm passando as entidades.

Um dos pontos mais levantados dizia respeito à conscientização da população sobre o abandono, que resulta em muitos animais circulando pela cidade e procriando: “A cidade poderia ter um centro de recolhimento, como se fosse o NAM (Núcleo de Apoio ao Migrante) ou mesmo uma carrocinha para tirar esses animais da rua e uma vez recolhidos a população poderia ajudar doando 5 reais, através da conta de água, por exemplo”, sugeriu o cidadão Aridelson Martins, o primeiro a se pronunciar.

Ele também destacou a dificuldade em apurar casos de maus tratos e até mortes de animais. Citou os casos de envenenamento, que sempre acabam impunes por conta da difícil comprovação do crime por parte da polícia. Sobre a violência contra os animais, outros populares se manifestaram, dando início à discussão sobre o uso das carroças na cidade.

Alexandre Lamatina, funcionário da Câmara, pediu a palavra para também falar sobre o abandono: “Acredito que essa questão tem 3 variantes importantes: 1º as pessoas, 2º o poder público e 3º a participação da sociedade civil e das Ongs. As pessoas devem ter em mente a questão da posse responsável. A pior coisa que alguém pode fazer a um animal é abandonar. Por isso a posse responsável é a melhor forma de participar enquanto pessoas e é melhor do que deixar num abrigo. O poder público deve preocupar-se com o controle das zoonoses, ficar atento pois os animais podem transmitir doenças e essa medida pode ser feita através de castração, vacinação. E a sociedade e as Ongs preenchem muitas vezes essa lacuna que o poder público não consegue preencher. E além das Ongs, que fazem um belo trabalho, há as pessoas sozinhas, independentes que também trabalham”, destacou Lamatina, finalizando ao dizer que a sociedade dos cinófilos (todos aqueles que gostam e criam cães), da qual ele faz parte, se dispõe a ajudar as Ongs.

Representando uma das duas Ongs da cidade, Nelson de Souza, da Fundação Ecobrasil discursou sobre as dificuldades em se manter uma instituição deste porte, que abriga hoje 52 cachorros e 90 gatos - todos abandonados e vítimas de algum tipo de crueldade. “Vivemos numa sociedade em que se abandonam não só animais, mas crianças, idosos. Porém os animais não têm voz, seus donos os jogam na rua eles não têm a quem recorrer”. O militante de longa data pelos direitos dos animais explicou que mesmo recebendo a ajuda de alguns amigos que fazem doações de ração ou medicamentos, a situação ainda está longe de ser confortável. Ao comentar a situação das carroças, Nelson diz que precisa existir um trabalho de conscientização.

Cães deixados nas ruas ou nas estradas, cadelas com suas crias recém-nascidas ou prenhes, altas dívidas, muitas cobranças e pouca compreensão por parte da sociedade. Esses foram alguns dos pontos levantados por Marisa Araújo, representante da Ong S.O.S Totó, entidade que há poucos dias apareceu nas notícias com ameaça de fechar suas portas. E a crise não foi exagerada. São 120 cachorros que consomem aproximadamente 90 quilos de ração ao dia, e embora algumas doações sejam feitas de coração por amigos e empresas, ainda assim não é suficiente. “Chegamos numa situação limite, precisamos efetivar essa questão da investigação de abandono. Não temos apoio do poder público e a sociedade pode colaborar mais. Deixamos há mais de um mês um cofrinho no Camilo Rações para as pessoas doarem pelo menos 1 real e até agora o cofrinho não passou da metade! O que é 1 real, gente? Não podemos obrigar as pessoas a ajudar, mas por outro lado somos muito cobrados, todo mundo acha que temos a obrigação de recolher os cachorros, mas estamos numa situação insustentável!”.

Marisa, apoiada por sua companheira de Ong, Natália Martini Christóforo, ainda desabafou sobre o fato de algumas pessoas duvidarem a idoneidade da Ong: “Tem gente que acha que recebemos muito dinheiro e que desviamos essa verba. Não recebemos nada! Mas nós não vamos desistir porque a gente ama o que faz”. Natália acrescentou que todos os envolvidos no trabalho da S.O.S Totó são voluntários e que quem ainda duvidar da seridade da entidade sinta-se convidado a participar das reuniões, que são abertas ao público, e conferir a prestação de contas.

E alternando o assunto dos maus tratos (tema central da audiência), com a questão das carroças, outros populares se manifestaram - alguns até de forma efusiva - afirmando que nem todos os carroceiros maltratam seus animais e que por isso não podem pagar por aqueles que maltratam. Os vereadores Eli da Eligás e Zelito tomaram a palavra para darem suas sugestões. Eli mencionou que os animais pudessem ser chipados e Zelito, que os cavalos e seus proprietários fossem cadastrados, a fim de facilitar a identificação, caso haja denúncia de abandono ou alguma violência contra o animal.

Rubens Bottino, diretor da Sama (Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente) reforçou o discursos de que os carroceiros que trabalham de forma correta e tratam bem seus animais não podem“ser colocados no mesmo pacote” daqueles que não respeitam seus bichos e que por isso toda a classe dos carroceiros deve se unir para denunciar “aqueles sacanas”, como Bottino define os maus carroceiros.



Cidadão de outra cidade abandona animais em Garça

Nesta semana mais um caso - dentre os vários - de abandono foi registrado em Garça. Na manhã da última quarta-feira (29) o vereador Francisco Christóforo recebeu uma ligação da Polícia Militar dando conta de que um casal de cães havia sido deixado próximo à saída para Álvaro de Carvalho. O aviso foi feito pelos policiais Paz e Scaqueti e imediatamente ao chamado, o vereador, acompanhado de Mauro Rosa (presidente da Ong S.O.S Totó) foi ao local.

Os cachorros foram recolhidos à Ong e um Boletim de Ocorrêcia foi feito, e de acordo com testemunhas, o responsável pelo abandono teria sido um morador de Álvaro de Carvalho.

Durante a primeira audiência pública realizada a fim de discutir a questão animal, feita no ano passado, falou-se muito sobre a possibilidade de pessoas de cidades vizinhas, atraídas pelo fato de Garça possuir duas Ongs, abandonarem os animais em nossa cidade; Garça estaria fadada a se tornar um “depósito de animais”. Esse talvez tenha sido o primeiro caso de “importação” de animais abandonados em Garça - pelo menos o primeiro registrado oficialmente. Porém, mais do que discutir se Garça pode se tornar ou não depósito de animais, é preciso que haja uma investigação mais “apertada” em cima dessas pessoas e que elas sejam efetivamente punidas, que é o que infelizmente não vem acontecendo.



“Não vou desistir da luta”

Aproveitando o gancho ainda sobre a tração animal, o vereador Francisco Christóforo, autor do projeto de lei que visava abolir o uso de carroças na cidade, convidou a todos aqueles que ainda tivessem alguma reclamação ou dúvidas sobre essa questão para se manifestar: “Quem questionou o projeto de lei e ainda quiser falar sobre esse assunto, a hora é agora. Ou então podemos marcar uma reunião só para tratar desse tema”.

Christóforo, que também faz parte da Ong S.O.S Totó fez questão de mostrar a todos os presentes, através de fotos, a situação monstruosa em que muitos animais são encontrados e resgatados. Cães que foram abandonados por seus donos, ainda dentro de casa, sem comida e com água podre para beber. Cachorros mutilados. Animais cobertos de bernes. Cavalos desnutridos e à beira da morte, soltos em vias públicas ou amarados sob o sol forte. Muitas destas imagens chocaram os presentes: “É bonito ver uma cena destas? Isso acontece em Garça, gente! A situação não é essa maravilha que vocês pensam”.

Descontentando alguns dos carroceiros que estavam na audiência, Christóforo voltou a afirmar que o uso de cavalos para o trabalho e locomoção é algo que tem de acabar: “Vocês falam que carroça é tradição, mas houve um dia que a escravidão também era tradição no Brasil, mas que foi abolida em 1888! Eu não vou desistir da minha luta!”, inflamou-se o vereador e voluntário, arrancando aplausos de uma parte do público e contrariedade de outra parte.

Juninho também destacou que a Ong manteve reuniões com o prefeito José Alcides Faneco a fim de regularizar a compra de ração por parte da prefeitura e que, sabendo que seu primeiro projeto poderia ser barrado, como realmente foi, que ele está com um segundo projeto que visa regulamentar a profissão de carroceiro.

Encerrando a audiência, o vereador Vanderlei Ferreira - que presidiu a mesa nesta noite - sugeriu a criação de um 0800 para que denúncias possam ser feitas, inclusive de forma anônima. Mesmo que durante a audiência pública, o foco do encontro tenha se perdido em alguns momentos, e mesmo com algumas conversas mais “acaloradas” e opiniões ainda bem divididas, algumas sugestões surgiram, e foi possível notar que vários segmentos da sociedade estão interessados em solucionar o problema dos maus tratos aos animais. Ao menos um ponto em comum entre todos.

 


Mais Notícias