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Postado em 21/02/2018 às 09:00

Por que quero envolver o outro, se o fracasso é meu? (Sílvio Lopes Peres)

Como você reage ao fracasso? Fica inquieto, aflito, perturbado, desassossegado, angustiado, ansioso, busca conhecer suas raízes? Ou, ao contrário: fica indiferente, inclinado a encontrar alguém para responsabilizar, tende a agir da mesma maneira, certo de ter feito aquilo que deveria em razão das situações?

Não estamos ligados ao fracasso? Se não, então por que sofremos? Por que sentimos que sofremos? Afinal, sofremos ou não? Não é por que fracassamos?

Qual a dimensão do fracasso em nossa vida?

Fracasso é mais do que uma crise que pode ser resolvida com alguma facilidade e esforço. Antes, é uma experiência a qual nos leva a sentir que temos de fazer algo com nós mesmos a fim de tornar a vida seja melhor.

Rafael López-Pedraza (1920-2011), analista junguiano, fala da necessidade de possuirmos a “consciência de fracasso”, como a capacidade de nos aproximar de nós mesmos, ampliando a consciência de quem somos de verdade. Ele aponta que nos negamos a ter consciência de fracasso devido à complexa e misteriosa natureza humana, que nos leva a criar a fantasia de podermos ter sucesso custe o que custar, mesmo sentindo que algo não está correto, através do processo de racionalização dos motivos que nos levam a sentir que fracassamos.

Isso lembra o mito da queda da humanidade, registrado no Livro Sagrado, Gênesis (Capítulo 3). Quando o homem e a mulher comem o “fruto do conhecimento do bem e do mal” fogem da questão mais importante. Negam a percepção do que os levaram a desobedecer e satisfazendo-se com a formulação de um mecanismo de defesa de racionalização, reagindo com: “A serpente me enganou”; “A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi”.

Esse mito ilustra o processo inconsciente de expulsar um conteúdo subjetivo que provoca angústia, por considerá-lo incompatível ao que sentimos sobre nós mesmos e sobre os outros. E, ao reprimirmos a “consciência de fracasso”, ficamos como que possuídos por esse mecanismo de defesa, interrompendo o fluxo de aproximação de nós mesmos que é a melhor forma de autoconhecimento.

Destarte, a nossa sobrevivência depende da seriedade que tratamos a natureza humana. É como se ainda tivéssemos de responder ao questionamento relatado no mito em questão: “Onde você está? Quem te fez saber que estás nu? Que é isso que fizeste, comer da árvore que ordenei que não comesses?”.

O melhor disso é a inexistência de respostas corretas ou falsas. O mais importante é responder, assumindo seja lá o que represente o “isso”, desde que a sua resposta seja pessoal, íntima, séria e trazendo para perto de si, seja lá o que for que o levou a achar o sucesso em transferir ou projetar em outras pessoas ou em objetos, o conteúdo considerado incompatível com você mesmo. A questão a ser respondida é: Por que quero envolver o outro, se o fracasso é meu?

“Se nos esforçássemos em criar consciência de fracasso”, afirma López-Pedraza, “estaríamos mais dispostos a entendê-la como uma consciência compatível com algo que está obscuro: o sofrimento em uma parte de nossa natureza que tem sido rejeitada” (Ansiedade cultural. São Paulo: Paulus, 1997: 95).

Quer dizer, a “consciência de fracasso” é obtida quando nos pomos diante das questões que nos fazem sofrer, sem fantasiá-las, num auto-engano, ainda que racional.

 

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pelo Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), ambos filiados à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)


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